Paulo Emílio/Brasil 247 – O principal assessor internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Celso Amorim, avaliou que o Brasil não deve aceitar, nos moldes atuais, a proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a criação de um Conselho da Paz. Segundo ele, o modelo apresentado carece de clareza, amplia excessivamente seu alcance e concentra poder de forma incompatível com o sistema multilateral.

Em entrevista ao jornal O Globo, Amorim afirmou que o estatuto encaminhado junto ao convite ao Brasil representa, na prática, uma tentativa unilateral de reformar a Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente na área de paz e segurança, o que considera inaceitável do ponto de vista diplomático.

Estatuto amplia alcance e não menciona Gaza

Para Amorim, um dos pontos mais problemáticos da proposta é a ausência de referência direta à Faixa de Gaza no documento oficial. “A palavra ‘Gaza’ não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito. Isso está dito claramente”, afirmou. Segundo o assessor presidencial, o conselho poderia atuar em múltiplos cenários internacionais, funcionando como uma espécie de Conselho de Segurança alternativo, porém com um presidente praticamente permanente.

Ele destacou ainda que a própria carta enviada pelos Estados Unidos é contraditória. “A própria carta é confusa, porque começa a falar de uma coisa e depois vai alargando no documento anexo. Representa, na prática, uma revogação da ONU, sobretudo na área de paz e segurança. Essa parte, com certeza, eu não vejo como aceitar. Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”, disse.

Falta de espaço para negociação
Amorim ressaltou que o presidente dos Estados Unidos deixou claro que não aceita alterações no texto apresentado. “Ele disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil”, afirmou. Mesmo que houvesse uma separação entre o tema de Gaza e o escopo mais amplo do conselho, o assessor ponderou que a adesão brasileira não seria automática.

“O Oriente Médio é muito importante para nós. Seria preciso saber a opinião dos próprios palestinos e de outros países árabes”, acrescentou.

Convite não é visto como armadilha

Questionado se o convite poderia ser interpretado como uma armadilha diplomática, Amorim descartou essa hipótese. “Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim”, afirmou, observando que Trump costuma adotar uma visão de relações internacionais na qual se coloca como figura central.

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