Vindo da espinhenta caatinga,
onde o sol é rei e o vento é decreto,
desceu o gato laranja,
imperador de poeira e fome,
arranhando o destino com garras de ferro.

Governava os becos como quem governa mundos.
Os outros gatos — súditos e sombras —
temiam-lhe o olhar de brasa,
a cauda erguida como estandarte,
o ronronar que soava sentença.

Felipe, chamei-o,
porque só um rei merecia tanto medo.
Felipe II do Potengi,
filho do sertão e da altivez,
monarca das telhas e dos telhados quentes.

Mas um dia voltou ferido,
a cor já manchada de dor e poeira.
Sangrava e mancava,
e o seu império — oh, tão vasto! —
fez-se miúdo, minguado, esquecido.

Os gatos riam nas esquinas.
Já não curvavam o dorso.
O medo evaporou-se
como chuva de verão
que não molha nem a alma.

Olhei para suas feridas
e nelas vi a ferida do mundo:
o poder que apodrece,
a glória que se esfarela,
a vida que se cansa de si mesma.

Enquanto eu pensava um plano
para curar o imperador,
ele sumiu —
como som que o vento leva,
como império que se dissolve na areia.

Três luas passaram.
Três meses de silêncio e ausência.
E então compreendi:
Felipe II reinava agora noutro plano,
onde nem as pulgas ousam reinar.

Dei-lhe o nome e a lenda:
Felipe II do Potengi,
como o outro Felipe de Espanha,
corroído pelos vermes no apogeu
de um império onde o sol nunca se punha.

E aqui estou, diante do vazio,
lembrando do gato-rei
que um dia mandou no mundo
e hoje reina apenas
no pequeno altar do meu afeto.

Porque há mortes que matam o corpo,
e outras que o tornam eterno.
Felipe, o laranja da caatinga,
morreu — mas brilha ainda,
entre o barro e a memória,
no coração de quem o temeu
e de quem o amou.

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