No dia 20 de abril de 2022, João Cezar de Castro Rocha, professor da UFRJ, em entrevista para a TV 247 analisou a máquina de comunicação do governo. Ele tem se dedicado ao tema, publicando uma série de artigos no jornal Rascunho (“O jornal de literatura do Brasil”, Curitiba/PR), com o título “Midiosfera bolsonarista e dissonância cognitiva” (em março de 2022, publicou o 6º. da série) e é autor do livro Guerra cultural, e retórica do ódio crônicas de um Brasil pós-político (Editora e livraria Caminhos, 2021).

Na entrevista, ele retoma alguns aspectos do que tem escrito e um dos seus objetivos é o de compreender como a extrema direita se apropriou da potência do universo digital e, no caso do Brasil, “pavimentou seu rumo ao poder por meio de propostas imediatistas e mimetizam a violência que em tese pretendem combater: armar a população, endurecer as penas, militarizar ainda mais as forças de segurança, promover uma trágica espetacularização da repressão policial – sempre em áreas pobres dos centros urbanos”.

Ele tem participado de vários grupos bolsonaristas (salientando que necessita de uma boa dose de sanidade mental) e fez uma seleção de imagens, vídeos, mensagens etc. nesse ambiente e percebeu nessas redes o que chamou de princípio da construção de uma “onda” em favor de Bolsonaro, como ocorreu em 2018. Procura entender como funciona a “construção do mito” (como a exibição de um vídeo em que há uma foto de Bolsonaro hospitalizado e uma tela do pintor renascentista Andrea Mantegna (1431-1506) – considerado um dos grandes mestres da pintura do Renascimento do século XV na Itália). A pintura é A Lamentação sobre o Cristo Morto, uma de suas obras mais importantes e da renascença italiana. A ideia de quem montou é relacionar Bolsonaro com Cristo (e a ressurreição… no caso do primeiro, pós-atentado em setembro de 2018). Há muitas montagens como a foto de uma “multidão” que não havia (habilmente manipulada) em uma manifestação a favor do presidente em Curitiba; o uso da bandeira do Brasil como se fossem os únicos patriotas (e curiosamente, em algumas manifestações, se juntam as bandeiras de Israel e dos Estados Unidos…), e, importante destacar, salientando que tudo isso vai além do antipetismo e neste momento, está muito mais profissionalizado do que ocorreu em 2018, com o uso mais amplo e sistemático das redes sociais e não apenas do whatsapp. Diz ainda que estão “se preparando para uma guerra”. E como seu candidato até o momento está atrás em todas as pesquisas – e há mais de um ano e a poucos meses da eleição – o esforço tem sido desacreditar as urnas e a própria eleição. E como ele diz, há uma inteligência por trás, que sabem o que faz e a quem se dirige.

Quando as redes sociais foram criadas, havia uma expectativa de que seria um espaço de liberdade, do movimento livre de ideias e de opiniões, mas progressivamente foram apropriadas pela extrema direita e se transformaram em espaço de intolerância em que a crítica é substituída pela agressão, desqualificação e violência “própria de uma turba enfurecida, disposta ao linchamento”. Não se trata de um espaço de troca de ideias, diálogos, de compreender o outro, mas de vigiá-lo e se possível, puni-lo. O diálogo está bloqueado (como dialogar com intolerantes?). E isso vai ao encontro do que afirma Jason Stanley ao analisar o fascismo: “O sintoma mais marcante da política fascista é a divisão”. O nós e eles. É a polarização que estamos vivendo.

E uma de suas estratégias é o uso da mentira, que é mais do que fake news: trata-se da criação de uma narrativa para legitimar o uso da força e destruir as instituições e a própria democracia.

No artigo Firehosing: por que fatos não vão chegar aos bolsonaristas, publicado na edição 137 (14 de Janeiro de 2019) do Le Monde Diplomatique por Renan Borges Simão, uso do termo para se referir a uma estratégia de fluxo contínuo e repetitivo, com um grande volume de mensagens com mentiras intencionais disparadas por diferentes canais (Firehosing significa o ato de apagar um incêndio, o fluxo de uma mangueira com grande quantidade de água usada para apagar incêndio).

Usada para fins políticos, trata-se de uma estratégia de disseminação de mentiras usadas como propaganda. O termo passou a ser utilizado com este sentido depois dos resultados de um estudo feito por pesquisadores norte-americanos nas campanhas eleitorais presidenciais na Rússia que deram a vitória a Vladimir Putin (ele se tornou Primeiro-ministro de Agosto de 1999 a maio de 2000, eleito presidente em maio de 2000 e reeleito desde então (a mais recente em 2018). Em suas campanhas foi constatado o uso de uma nova forma de propaganda política, que os autores da pesquisa chamaram de Firehosing, concebida como uma “técnica de propagação de mentiras em larga escala e em um fluxo constante, com o objetivo de afogar a opinião pública com mensagens e conseguir o monopólio da primeira impressão sobre determinados assuntos”.
O fato é que a extrema direita se apropriou das redes sociais – e não apenas no Brasil – e há uma inegável competência de disseminação de suas versões, por meio de uma infraestrutura de informação muito mais eficaz de que a dos seus opositores que, até o momento, não têm sabido enfrentar essa “guerra midiática”. E versões mentirosas, manipulações que são produzidas cotidianamente e em profusão, ficam impunes, na ausência de agência ou mecanismos reguladores (não de censura) e não apenas continuam a fazer como também ganham (muito) dinheiro, com a monetarização de acessos e pior, contribuindo para a desestabilização política.

Uma das mais eficientes estratégias é a criação de polêmicas efêmeras, visando confundir e desviar o foco de questões relevantes iludindo milhões de pessoas com mentiras, manipulações e falsidades, consolidando crenças que são consideradas combustíveis para o firehosing.

O funcionamento da máquina de propaganda e mentiras contínuas que têm sido difundidas e assimiladas com o uso intensivo das redes sociais. Como são criadas “bolhas”, não é necessário checar fatos, e como mostra o vídeo “Por que mentiras óbvias geram ótima propaganda” – no qual faz referência ao uso de fireshoring – esse processo se intensifica quando sentimentos de aversão, medo e felicidade são suscitados pelas mensagens disfarçadas de notícia. Há um simulacro de jornalismo.

Há outras ferramentas. No artigo Como o Google favorece a manipulação política, Patrick Berlinguette afirma que o Google construiu um mecanismo, um roteiro, que ensina, passo a passo “como criar seus próprios anúncios de redirecionamento para influenciar qualquer crença ou opinião – de qualquer usuário em qualquer lugar do mundo”, ou seja, a possibilidade de se usar uma ferramenta para segmentação da plataforma e redirecionamento, não apenas de anúncios, mas também pode ser usada para influenciar as convicções políticas das pessoas durante uma eleição.

Quais as estratégias mais eficazes para combater as mentiras? Apenas rebatê-las, ao que parece, não tem surtido efeito porque, como se sabe, elas são direcionadas justamente para quem acredita nelas, que não checa sua veracidade. No livro Subliminar: como o inconsciente influencia nossas vidas (Editora Zahar), Leonard Mlodinow investiga como o inconsciente modela o comportamento das pessoas e determina muito de suas decisões e juízos. Para ele o cérebro “influencia nossa experiência consciente do mundo de um modo fundamental – a maneira como nos vemos e aos outros, o significado que atribuímos aos eventos da nossa vida cotidiana, nossa capacidade de fazer julgamentos rápidos e tomar decisões (…) as ações que adotamos como resultado de todas essas experiências instintivas” (o livro está disponível aqui).

Um dos problemas da difusão sistemática de notícias falsas é que nas redes sociais elas são muito mais rápidas do que fatos verificáveis e os desmentidos não tem a mesma rapidez e eficácia. E quando dirigidas para seguidores que se alimentam da desinformação, não há possibilidade de contestação.

No artigo Fenômeno da pós-verdade transforma os consensos já estabelecidos, publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 18 de novembro de 2018, Tatiana Roque e Fernanda Bruno (professoras da UFRJ), ao investigarem a bem-sucedida estratégia eleitoral de Bolsonaro, especialmente com o uso do Whatsapp, afirmam que “Uma chave para entender o funcionamento da estratégia no Whatsapp está nas relações de confiança que sustentam os grupos – relações que foram sendo construídas pelo menos desde 2014 – a partir de interesses que não se restringiram à política, como por exemplo, o uso do chamado “kit gay” na propaganda eleitoral que se alastrou não apenas pela desinformação, volume de mensagens ou falta de checagem factual, mas por carregar crenças e valores alinhados a certos seguimentos da população, que aceitaram sem questionar a veracidade da informação (no caso, mentiras).

Nesse caso, afirmam que mostrar apenas a falsidade da notícia pode ser uma estratégia política pouco efetiva: “Na política (…) o combate à desinformação e a disputa de posições não podem se contentar com a defesa de critérios de objetividade. Para que haja uma contraposição à força da extrema direita, vai ser preciso construir uma alternativa convincente, que repactue os critérios tradicionais da produção de consensos e enfatize os valores que levariam mais pessoas a apostar nessa opção”.
Quais as alternativas? Para João Cezar Castro, é mais do que urgente que os combatentes contra a barbárie compreendam o papel fundamental das redes sociais no processo eleitoral e mais do que isso, produzam e divulguem alternativas aos ataques, manipulações e mentiras e para isso é preciso pesquisar o submundo das redes sociais e como a extrema direita produz uma realidade paralela. O uso das redes sociais da forma como tem sido feita não expressa apenas o fim das mediações dos partidos políticos, como a fragilização do regime democrático. Daí a necessidade do embate contra a estratégia da mentira, da banalização da democracia e de criar alternativas com argumentos e valores democráticos, em defesa da civilização contra a barbárie.

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Rogério Melo
1 ano atrás

Grande mestre, prof. Homero. Saudades dos debates em sala de aula. 🙌🏼✨

Mario Miranda
1 ano atrás

Diante do exposto e do que experimentamos com este desgoverno, não resta dúvidas de que 2022 será muito pior que 2018 – dá até medo de pensar no futuro….

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