Pense na imagem de um anjo que, em vez de voar, é empurrado irresistivelmente por uma tempestade, cuja ventania atinge a parte de dentro de suas asas abertas e não o deixa parar. De costas para a direção para a qual é levado, ele enxerga, enquanto se desloca, a História. Seus olhos estão muito abertos e sua boca escancarada: “onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única”. O anjo gostaria de “deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos”, mas não consegue. Essa tempestade, que o impele para o futuro, é o que chamamos progresso.

O parágrafo acima é uma transcrição aproximada de um famoso trecho do ensaio Teses Sobre o Conceito de História (1940), de Walter Benjamim. Essa visão apocalíptica do que se convencionou chamar de Modernidade retomou força recentemente com os riscos do aquecimento global e a ascensão de regimes de extrema direita. E a literatura também a reflete. Um exemplo disso é A Morte e o Meteoro, de Joca Reiners Terron, lançado no final de 2019, pela Editora Todavia.

No romance, que se passa em um futuro próximo, o Brasil se envolveu em uma guerra contra a Venezuela, a Amazônia está em frangalhos e a China tomou a frente da corrida espacial, com uma missão tripulada iminente à Marte. A história se concentra, no entanto, em uma tribo de índios isolados da Floresta Amazônica, os kaajapukugi, que vivem à margem do rio Purus.

Asilo político

A destruição de seu ecossistema, associada a ação de garimpeiros e madeireiros – com a cumplicidade do governo – os levaram à beira da extinção: sobraram apenas 50 pessoas da etnia. E eles, por meio de uma ONG internacional, pediram refúgio no exterior. “Foi o primeiro caso da história das colonizações no qual um povo inteiro (…) pediu asilo político em outro país.”

Dois homens são os encarregados diretos de providenciar a emigração. No Brasil, isso fica a cargo de um sertanista famoso e, ao mesmo tempo, misterioso, chamado Boaventura. Em sua juventude ele manteve algum tipo de observação aos kaajapukugi e publicou artigos sobre eles.

Já no México, local de destino dos índios – mais exatamente uma reserva na região de Oaxaca – a missão de organizar sua chegada e adaptação é dada a um antropólogo e burocrata de uma decadente organização governamental. E é através dele que o romance é narrado.

Tons de noir

A etnia chega a se assentar no local, mas algo não vai dar certo nesse processo. O antropólogo mexicano será, então, encarregado de descobrir detalhes sobre o que houve com os kaajapukugi. Com isso, também vai travar contato com a antiga e nebulosa relação entre Boaventura e a tribo, numa narrativa de crescente tensão e com tons de literatura noir.

Joca Reiners Terron emprega uma linguagem elegante e direta. E o ambiente opressivo que predomina no romance é constituído não só por um contexto político-social decadente e cínico, mas também pela própria iminência da extinção de um povo e sua cultura. Some-se a isso o fato do antropólogo mexicano estar em um momento de luto, em função da morte de seus pais.

A visão de mundo do narrador, aliás, é marcada por um difícil relacionamento com a família. E o mesmo acontece com Boaventura. O curto-circuito que isso provoca com a geração que os precedeu parece ser usado pelo escritor como uma representação da maneira como nós, modernos, convivemos com a memória e o mundo natural em que, gostemos ou não, estamos inseridos.

Conflito geracional

Nesse ponto parece estar uma lacuna importante do livro de Terron. É que, apesar de tal conflito geracional ser o pano de fundo da motivação de ambos os personagens, não se fica sabendo praticamente nada a respeito do assunto.

A discussão levantada pela obra pode nos levar a perguntas como: “afinal, toda tradição deve ser preservada?” ou “não existe ruptura cultural possível sem destruição danosa?”. E o problema não é que essas perguntas fiquem no ar, mas sim que elas sequer cheguem a ser representadas.

É importante ressaltar, por outro lado, que Terron construiu um livro marcante não só pelas reflexões políticas e filosóficas que propõe, como também pelo seu estilo preciso e belo como uma faca de bambu dos kaajapukugi. Tudo isso faz de A Morte e o Meteoro uma urgente parábola do período histórico que vivemos.

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